As eleições brasileiras de 2026 colocam o Brasil diante de uma decisão que afetará diretamente o emprego, a tecnologia e o bolso de cada cidadão.
A relação diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos (EUA) atravessa um momento de turbulência em 2026, alimentada por questionamentos e suspeitas sobre possíveis tentativas de interferência norte-americana nos trâmites administrativos e institucionais brasileiros.
O cenário atual contrasta com o ponto de partida da trajetória: em 1824, apenas dois anos após a proclamação da independência brasileira, os Estados Unidos estavam entre as primeiras nações a reconhecer formalmente a soberania do novo país.
O que à primeira vista poderia sugerir um gesto de cordialidade, contudo, escondia pragmatismo geopolítico. Como explica o professor de história Gerardo Majella:
“Em 1825, o Império propôs uma aliança defensiva e Washington recusou. O presidente James Monroe, na época, aplicava a doutrina que recebia seu nome, a Doutrina Monroe, cujo foco principal era avisar aos europeus que o continente americano tinha um novo dono, nesse caso os Estados Unidos”.
O mesmo pragmatismo, como explica Gerardo, pode ser observado na recente intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela: “O acordo petrolífero de agosto deste ano entre os dois países colocou o petróleo venezuelano no controle norte-americano, com quase nenhum benefício para o nosso vizinho latino””, explica.
Após intervenção militar na Venezuela, o presidente Donald Trump invocou a Doutrina Monroe, apelidando-a de “Doutrina Donroe”. Desta vez, o principal alvo da Casa Branca é a China, e a América Latina se tornou peça estratégica nessa guerra comercial.
À medida que as eleições brasileiras se aproximam, a tensão entre Brasília e Washington se intensifica, apesar de Donald Trump e o secretário de estado Marco Rubio evitarem apoiar explicitamente um nome.
Para entender como o mundo observa as eleições brasileiras de 2026 e o que aconteceria se o Brasil pender para um lado na guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, consultei Vitor Alves, cientista político e internacionalista.
Para Vitor, a perda de soberania na tomada de decisões estratégicas para potências como EUA ou China teria impactos práticos inegáveis no dia a dia do país. Sem autonomia, o Brasil perderia a “capacidade de planejamento para as necessidades do povo brasileiro”. Os lucros do trabalho nacional deixariam de ser reinvestidos automaticamente no país, pois seriam remetidos para matrizes no exterior.
O resultado disso seria a geração de empregos de menor qualidade e salários mais baixos, reduzindo o poder de compra da população e afetando diretamente outros setores, como o de serviços. Haveria também um desestímulo à formação de mão de obra qualificada, podendo levar a uma “fuga de cérebros” de profissionais em busca de oportunidades melhores no exterior.
O Brasil se beneficia da sua neutralidade: temos acordos comerciais importantes com países e grupos conflitantes, a exemplo da Rússia e União Europeia. Nas últimas décadas, setores estratégicos, como o logístico e a nossa defesa, estão sendo impulsionados por parcerias de diferentes atores.
Alves alerta que um alinhamento automático e sem questionamentos com os Estados Unidos colocaria o Brasil em uma posição inferior: “É seguro dizer que o Brasil não entraria nessa relação como um ente igual aos Estados Unidos, e sim como um país vassalo. (…) seríamos obrigados a seguir os ditames de Washington para beneficiar primeiro aos Estados Unidos””, defende.
Usando os dados da Balança Comercial de 2026, o especialista explica como seria esse prejuízo: se os Estados Unidos nos obrigassem a cortar pela metade nossos negócios com a China, que é o país que mais compra de nós, o lucro que temos nessa relação desabaria.
Nas palavras do especialista:
“Observando os números da nossa economia de janeiro a agosto de 2026, as nossas vendas para a China despencariam de R$ 77 bilhões para R$ 38,5 bilhões, e o que compramos deles cairia de R$ 51,5 bilhões para R$ 25,75 bilhões. Isso significa que o nosso lucro direto, o chamado superávit, seria cortado de R$ 25,5 bilhões para apenas R$ 12,75 bilhões”.
Para piorar a situação, nossa relação comercial com os Estados Unidos ficaria ainda mais no vermelho. O motivo é simples: os americanos produzem as mesmas coisas que vendemos para os chineses, como produtos agrícolas, o que significa que eles não comprariam a nossa safra.
“Os setores mais afetados num eventual alinhamento do Brasil com os EUA seriam o agronegócio, pois somos competidores a nível internacional em áreas como produção de carnes, soja e milho, e possivelmente teríamos um direcionamento para a redução da nossa produção, para manter a produção americana mais competitiva no mundo”, destaca Vitor.
Além de perder essas vendas, o Brasil seria obrigado a pagar muito mais caro para comprar os produtos industrializados de outros lugares, sem contar com as opções baratas que hoje vêm da China. O cientista político alerta que esse buraco financeiro demoraria um bom tempo para ser fechado, já que seria muito difícil encontrar rapidamente outros países pelo mundo dispostos a comprar toda a gigantesca quantidade de produtos que os chineses deixariam de importar daqui.
No setor de inovação, como na internet 5G, as duas potências globais agem de maneiras muito diferentes. Os Estados Unidos preferem apenas vender os aparelhos prontos, sem nenhum interesse em ajudar o Brasil a desenvolver suas próprias inovações e pesquisas.
A China se mostra mais aberta para criar tecnologias em parceria com os brasileiros, mas a dependência também traz ameaças. Sobre os riscos dessa aproximação com os asiáticos aliada a um afastamento de Washington, o especialista avalia:
“Os Estados Unidos são o segundo parceiro comercial do Brasil, representando 9,6% das exportações e 13,9% das importações, enquanto a China representa 30,7% e 26,3%, respectivamente. Ter cerca de 40% do comércio exterior do Brasil nas mãos de um único país seria algo muito arriscado, pois qualquer crise no tigre asiático afetaria fortemente o Brasil”.
O mundo observa o Brasil
Diante de tudo isso, a mídia internacional acompanha a disputa eleitoral no Brasil com muita cautela.
Os investidores estrangeiros veem o atual presidente Lula como um político capaz de manter as portas abertas com vários países, mas enxergam com preocupação a situação financeira e o baixo crescimento da economia brasileira atual, como explica Vitor Alves:
“O atual presidente é sempre abordado pelo seu sucesso nos dois primeiros mandatos (2003-2010), mas também pelo histórico de casos de corrupção revelados em seus governos, nas dificuldades de governabilidade frente a um parlamento majoritariamente de direita, e dos problemas fiscais e baixo crescimento da economia neste seu terceiro mandato”, destaca.
Ainda sobre o presidente Lula, Alves destaca sua habilidade de diálogo: “Isso é visto como uma vantagem para os mercados, pois indicaria uma continuidade da disposição brasileira de atuar em diversas frentes”, explica.
Do outro lado, o candidato Flávio Bolsonaro agrada aos investidores quando promete maior rigor no controle das contas públicas, mas sua postura abertamente a favor dos Estados Unidos e contra a China assusta os mercados. Existe o grande medo de que essa atitude prejudique as nossas vendas para os chineses e gere conflitos comerciais que o Brasil não tem como pagar, a exemplo do BRICS.
No fim das contas, a escolha nas urnas decidirá mais do que quem governará o país; ela definirá o lugar do Brasil no mundo. Como resume o cientista político, “os mercados sugerem levemente uma preferência a Lula ante Flávio Bolsonaro, pois Lula representa uma continuidade dos acordos firmados até o momento, enquanto Bolsonaro levaria possivelmente o Brasil a um alinhamento exclusivo com os Estados Unidos”.
Para o eleitor brasileiro, a mensagem é clara: defender a soberania é a única garantia de que o Brasil não entregará o próprio futuro nas mãos de potências estrangeiras.



