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Escritora Laís Araruna lança “As sessões” neste domingo (30) no Recife

Finalista do Prêmio Jabuti 2025, a escritora pernambucana Laís Araruna de Aquino lança seu novo livro, As sessões, em um evento no dia 30 de agosto, na Livraria do Jardim.

A escritora pernambucana Laís Araruna de Aquino, finalista do Prêmio Jabuti 2025 com Nós que nos amávamos tanto, lança seu novo livro, As sessões, no próximo dia 30 de agosto, um domingo. O evento será às 11h, na Livraria do Jardim, no bairro da Boa Vista, Recife, e contará com uma conversa da autora com os escritores Bernardo Brayner e Thiago Abercio.

As sessões é um romance epistolar construído como uma longa carta de L. para Z., sua ex-terapeuta. O livro parte de uma situação mínima: L. decide não voltar ao consultório, mas continua sentindo necessidade de falar com Z. A interrupção das sessões, em vez de encerrar a relação, dá início à escrita – e a escrita passa a prolongar aquilo que deveria interromper.

“Escrevo porque preciso. Escrevo para não frequentar seu consultório. Não só isso. Para fazer algo com tudo isso aqui, o que sinto, o que penso; ao invés de montar um palco na minha cabeça e encenar diálogos e monólogos, tudo que lhe diria, tudo que você me diria, coisas que jamais ocorrerão. Ao invés de pensar em você, escrevo.”

A primeira versão do romance foi escrita em aproximadamente 36 dias, embora o texto tenha passado posteriormente por inúmeras revisões. Laís começou a escrever sem uma trama planejada ou uma forma definida a priori. A escrita foi adquirindo autonomia até que a situação inicial – L., Z. e os personagens que surgiam ao redor delas – se mostrasse capaz de sustentar uma novela ou um pequeno romance.

Esse processo está ligado também à maneira como a autora escreve: à mão, com caneta e papel. Para Laís, a materialidade da escrita interfere naquilo que é escrito. O pensamento tem uma velocidade; a mão, outra. A mão cansa, faz pausas, encontra seu próprio ritmo e pode desviar daquilo que havia sido inicialmente pensado. “A mão pensa”, diz a escritora. Retomando uma formulação de María Negroni, segundo a qual não há gêneros literários, mas aventuras do espírito, Laís acrescenta: escrever é uma “aventura do espírito e da mão”.

O formato epistolar também nasceu durante esse processo. Entre as referências literárias da autora estão Caro Michele e A cidade e a casa, de Natalia Ginzburg, além de Carta ao pai, de Franz Kafka, e Carta a D., de André Gorz. Em As sessões, porém, não há uma troca de correspondências: há uma única voz que escreve. A relação entre L. e Z. continua, assim, a existir dentro da própria linguagem escrita.

É daí que surge um dos paradoxos que atravessam o romance. Para L., escrever tem inicialmente uma função prática: substituir as sessões. Mas, se escrever permite que ela não volte ao consultório, a carta também a impede de partir completamente. “Escrever é uma forma de não voltar. Mas também de não partir”, sintetiza Laís.

Essa tensão se estende à própria relação entre literatura e experiência. Embora As sessões seja uma obra de ficção, Laís parte da ideia de que todo livro é, em algum sentido, autobiográfico. Não porque aquilo que aparece na página corresponda diretamente à vida de quem escreve, mas porque a matéria da ficção nasce necessariamente do que foi vivido, observado, escutado ou experienciado.

A experiência que chega à literatura, no entanto, não permanece intacta. Personagens podem reunir traços de várias pessoas; acontecimentos distintos podem se transformar em um único episódio; aquilo que ocorreu pode ser deslocado, aumentado, diminuído ou inteiramente reorganizado. “A ficção mistura, desloca, transforma e reorganiza a experiência até que ela adquira autonomia em relação àquilo que lhe deu origem”, afirma a autora.

Essa distância entre experiência e escrita é também um dos problemas que o próprio romance coloca em cena. Escrever implica selecionar, deformar, imaginar, montar. Em determinado momento, L. afirma: “Mas a literatura não tem nada a ver com justiça” e, mais adiante: “E para fazer justiça a este ato, não posso fazer justiça à minha vida.”

As sessões nasce do tempo presente. “O escritor respira o ar do próprio tempo”, diz Laís. Essa contemporaneidade não está apenas nos acontecimentos narrados, mas na própria forma do romance. Sua trama é deliberadamente reduzida. O movimento do livro está menos na multiplicação dos fatos do que naquilo que o pensamento e a escrita fazem com eles.

A autora não pretende, com isso, conduzir o leitor a uma mensagem determinada. Interessa-lhe antes a experiência da leitura – a fruição da linguagem, a vertigem e a visceralidade da escrita, mas também a possibilidade de incômodo, objeção ou estranhamento. Para Laís, a literatura não precisa se limitar ao reconhecimento de si mesmo no personagem: pode também colocar o leitor diante daquilo que lhe é estranho e, com isso, ampliar seu mundo. “Não tenho como determinar o que alguém deve pensar ao terminar o livro. O que me interessa é que produza alguma coisa, que mova ou demova o leitor”, afirma. Que L. ou Z. continuem, de alguma maneira, caminhando com quem fechou o livro.

Desde o começo dos anos 2020, Laís mantém cadernos em que escreve livremente, sem definir, a priori, se surgirá daí um conto, uma crônica, um diário ou outra coisa. As sessões nasceu dessa prática e confirmou, para a autora, a importância da dimensão material da escrita. Mais do que executar um projeto previamente concebido, escrever significa permitir que a linguagem siga sua própria aventura através do autor, produza desvios em relação ao próprio pensamento até que o texto possa se separar de quem o escreveu e adquirir vida própria.

As sessões poderá ser comprado diretamente pelo site da editora Papéis Selvagens. A previsão é que, dentro de aproximadamente um mês, também esteja disponível na Amazon. O livro custa R$ 65.

Sobre a autora

Laís Araruna de Aquino começou sua trajetória literária pela poesia. Seus dois primeiros livros são Juventude e Nós só compreendemos muito depois. Juventude recebeu o Prêmio Maraã de Poesia de 2017, enquanto Nós só compreendemos muito depois foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2022. O terceiro livro, Nós que nos amávamos tanto, é uma obra de contos, embora também possa ser lido como um romance, pela presença da mesma personagem nas diferentes histórias e pela unidade que as atravessa. A obra foi finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Conto.


Serviço: Lançamento do livro “As sessões”

Data: 30 de agosto (domingo), às 11h
Local: Livraria do Jardim (Avenida Manoel Borba, 292, Boa Vista, Recife)
Bate-papo: Laís Araruna de Aquino, Bernardo Brayner e Thiago Abercio
Valor do livro: R$ 65

Trecho da obra

“Antecipo que você chamará meu pensamento de cruel. Cruel seria escrever que você é só um tema, o que em parte está correto. Dirá que fui injusta. Mas a literatura não tem nada a ver com justiça. Escrevo porque preciso. Escrevo para não frequentar seu consultório. Não só isso. Para fazer algo com tudo isso aqui, o que sinto, o que penso; ao invés de montar um palco na minha cabeça e encenar diálogos e monólogos, tudo que lhe diria, tudo que você me diria, coisas que jamais ocorrerão. Ao invés de pensar em você, escrevo. E para fazer justiça a este ato, não posso fazer justiça à minha vida. Escrever é terrível. Mas também ocupa o tempo, paga tributo a todos os sonhos e horrores do passado. Uma forma de sobreviver. Também de esquecer e perdoar.”

 

*Conteúdo estruturado pela I.A. do Aratu Online e revisado por um jornalista.

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