Glória do Goitá, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, celebra em abril o reconhecimento de importantes manifestações culturais. O município festeja os 18 anos do Grupo Mamulengando Alegria e a concessão do Título de Notório Saber em Cultura Popular da Universidade de Pernambuco (UPE) à mamulengueira e bonequeira Cida Lopes.
A honraria será entregue em 16 de abril, às 16h, no Campus Mata Norte, em Nazaré da Mata. Esse evento reforça o alcance institucional da trajetória de Cida Lopes, uma carreira construída no território e essencial para a continuidade do mamulengo no Estado.
Em Glória do Goitá, a trajetória de Cirleide do Nascimento Silva, 36 anos, conhecida como Cida Lopes, destaca-se como herdeira de Mestre Zé Lopes. Ao adotar o sobrenome artístico de seu pai, ela consolida, ao longo de 27 anos, sua atuação como referência cultural. Cida iniciou-se no teatro de bonecos ainda na infância.
O título concedido pela UPE reconhece mestres com mais de uma década de prática, legitimando saberes tradicionais no ambiente acadêmico. Ele também reforça o papel de Cida na preservação e transmissão do mamulengo em Pernambuco.
Mestre Zé Lopes, pai de Cida, foi um dos principais nomes do mamulengo no Brasil. Ele se dedicou à criação e manipulação de bonecos, além da formação de novos brincantes. Reconhecido como um dos mais representativos dessa tradição, recebeu prêmios nacionais voltados ao teatro de bonecos popular.
Em 2017, Mestre Zé Lopes tornou-se Patrono dos Mamulengos de Pernambuco e Patrimônio Vivo (in memoriam), títulos concedidos pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Zé Lopes também fundou o Museu do Mamulengo de Glória do Goitá e faleceu em agosto de 2020.
A atuação de Cida no mamulengo evoluiu progressivamente. Inicialmente, ela trabalhava nos bastidores, organizando os bonecos. Em seguida, dedicou-se à execução musical e, na fase adulta, assumiu a condução das apresentações. Esse percurso culminou com seu domínio das etapas da brincadeira e sua independência no teatro.
Com o apoio e incentivo de sua mãe, a mamulengueira e bonequeira Neide Lopes, 51 anos, Cida Lopes fundou o Grupo Mamulengando Alegria e a Casa dos Saberes da Cultura Popular (Casacupo). O grupo é composto exclusivamente por mulheres da família.
A criação do Mamulengando há 18 anos introduziu uma narrativa singular no teatro de bonecos. O grupo incorporou personagens femininas com novas abordagens, distanciando-se de discursos que reproduziam padrões antigos. A tradição familiar foi determinante nesse processo, com a contribuição da mãe e dos irmãos na confecção dos bonecos e na transmissão de técnicas.
Reconhecimento nacional da cultura popular
Cida Lopes tem levado sua atuação no cenário da cultura popular para além dos limites de Glória do Goitá. O grupo participa de festivais, feiras e encontros por todo o país, e também desenvolve oficinas para a formação de novos talentos na manipulação de bonecos.
O trabalho do grupo passou a integrar pesquisas acadêmicas em universidades e instituições públicas brasileiras. Cida Lopes marca presença anual na Fenearte, na Alameda dos Mestres, reconhecimento à sua contribuição ao mamulengo pernambucano.
O Grupo Mamulengando Alegria é certificado como Ponto de Cultura e possui estrutura institucional própria. No centro dessa articulação está a CASACUPO, um espaço de formação, circulação cultural e mobilização comunitária. Funciona como polo que reúne e impulsiona diversas expressões artísticas, como maracatu, teatro e o próprio mamulengo.
O que é mamulengo?
O Teatro de Mamulengo é uma forma de teatro popular com bonecos, tradicional no Nordeste do Brasil, especialmente em Pernambuco. As apresentações ocorrem em pequenos palcos, frequentemente montados em feiras, ruas ou festas. O público acompanha as histórias enquanto o manipulador se esconde atrás da estrutura, dando voz e movimento aos personagens.
As narrativas do mamulengo misturam situações cotidianas, elementos da cultura popular e temas conhecidos do público. Os bonecos falam, cantam, improvisam e interagem diretamente com as pessoas, criando um ambiente de troca e participação. Embora o riso seja central, há espaço também para a crítica social e a reflexão.
Nascido no interior, o mamulengo mantém uma relação direta com a vida das comunidades. Ele registra modos de falar, costumes e experiências do povo, servindo como uma forma de contar histórias transmitidas de geração em geração. Cada apresentação reflete os traços do lugar e das pessoas que a produzem.
Reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil, o Teatro de Mamulengo desempenha um papel importante na preservação da cultura popular. Ele mantém viva uma tradição que resiste ao tempo, valoriza saberes antigos e forma novos brincantes, garantindo a continuidade e a reinvenção dessa expressão.



