Entre a noite de sexta-feira (27 de junho de 2025) e a manhã do sábado seguinte, Igarassu enfrentou um dos episódios mais críticos de sua história recente. O que começou como uma típica chuva de inverno se transformou em um desastre socioambiental de grandes proporções, com alagamentos severos e vários desabrigados.
O gatilho direto para as inundações foi o transbordamento de múltiplos corpos d’água: os rios São Domingos, Côngrua, Monjope, Alexis, além do Canal do Manancial e o Açude de Araripe. O volume de água foi tal que bairros inteiros como o Loteamento Agamenon ficaram submersos, enquanto comunidades como Pitanga, Margaret Thatcher e Alto Bela Vista tiveram seu acesso interrompido e viram serviços básicos, como o transporte público, serem suspensos.
Segundo os dados oficiais da Defesa Civi local, até o dia 30 de junho, 165 pessoas foram diretamente afetadas. Dessas, 65 foram encaminhadas para abrigos públicos, inicialmente instalados na Escola Nossa Senhora da Conceição e depois transferidos para o Serviço de Convivência do Loteamento Agamenon. Outras famílias desalojadas encontraram abrigo temporário com amigos e parentes.
Até esta terça-feira (1), o número de desalojados caiu para 21 pessoas.
A origem climática e sua intensidade anormal
A causa meteorológica foi um Distúrbio Ondulatório de Leste (DOL), fenômeno típico da estação chuvosa nordestina. Contudo, o que era esperado como evento sazonal revelou-se excepcional: Igarassu registrou 162 mm de chuva em 72 horas. Segundo a Agência Pernambucana de Águas e Clima, em apenas três dias, a cidade recebeu aproximadamente 50% de toda a chuva esperada para os 30 dias do mês
Ao todo, choveu 440,3 mm, dos dias 28 a 30. O alerta inicial era de 120mm. Ou seja, choveu 4 vezes mais que o previsto.
Mudanças climáticas e a nova realidade
Pesquisas internacionais, como as do World Weather Attribution, já demonstraram que eventos como esse estão até 20% mais intensos devido ao aquecimento global. A intensificação das Ondas de Leste está diretamente associada ao aquecimento anormal do Oceano Atlântico, que alimenta tempestades com maior umidade.
Os planos de contingência, a engenharia de drenagem e as políticas de uso do solo são, em sua maioria, projetados com base em dados climatológicos do passado. A “normalidade” de 440,3 mm de chuva para o mês de junho em Igarassu é um retrato do clima do século XX. O evento de junho de 2025 é um indício da “nova normalidade” do século XXI.
Resposta institucional: entre planos e realidade
A prefeita professora Elcione decretou Situação de Emergência (Decreto Nº 61/2025) no sábado (28), mobilizando o Comitê de Enfrentamento às Chuvas e diversas secretarias municipais. A Defesa Civil estadual enviou técnicos para apoiar o preenchimento do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID), essencial para pleitear apoio federal.
Na sexta-feira (27) de manhã, a Defesa Civil local se reuniu com membros da Coordenadoria de Defesa Civil do Estado de Pernambuco para receber instruções da implementação um novo sistema de avisos, o Defesa Civil Alerta.
Também, informam que receberam a informação de que iria chover “pouco mais de 100 mm”. A cidade enfrentava inundações poucas horas depois, demonstrando que o alerta técnico não se traduziu em realidade.
Apesar de planos formais como o Plano de Contingência (PLACON) e o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR). Igarassu tem um histórico de vulnerabilidade estrutural. A ocupação desordenada de áreas de várzea, como o Loteamento Agamenon, e a ausência de obras estruturais de macrodrenagem agravam a crise.
O tradicional Festival de Quadrilhas, programado para acontecer em Cruz de Rebouças, foi suspenso. As escolas tiveram suas aulas interrompidas. A cidade parou; não por decisão, mas por incapacidade de seguir diante do cenário de calamidade.
É necessário um salto na governança do risco, no investimento em infraestrutura resiliente e na incorporação das mudanças climáticas como eixo central da política pública. Porque a próxima Onda de Leste virá, a questão é se Igarassu estará mais preparada.



