O mundo enfrentava a pandemia da COVID-19, um vírus que tirava vidas todos os dias.
Na cidade da Região Metropolitana do Recife, outra luta também ganhava espaço: o combate ao discurso de ódio, que, assim como a doença, destrói existências.
Em 2025, o pastor de Igarassu Aijalon Heleno Berto Florêncio recebeu a quarta condenação por crimes cometidos durante esse período difícil. Entre eles estão racismo, injúria racial e transfobia.
Ele usava principalmente o Instagram como palco para espalhar suas mensagens.Somadas, as penas chegam a 12 anos de prisão, em regime aberto e semiaberto. As multas e indenizações ultrapassam R$ 130 mil. Mesmo assim, em entrevista ao Aratu Online, o pastor disse não ter arrependimentos: "Não tem por que me arrepender de pregar a palavra de Deus. Isso é absolutamente impossível".
As vítimas dos ataques do pastor carregam marcas profundas, que afetam suas vidas e mexeram até mesmo com os debates políticos da cidade. Esse caso em Igarassu reflete uma disputa que acontece em todo o Brasil: o desejo por uma sociedade mais justa e sem discriminação.
Quem é o pastor?
Aijalon Heleno Berto Florêncio fundou, em 2019, o Ministério Dúnamis, no bairro Cruz de Rebouças. O nome vem de uma palavra grega usada no Novo Testamento que significa "poder". Para ele, isso representa a visão de "batalha espiritual", em que outras crenças não são apenas diferentes, mas inimigas a serem combatidas.
Mais tarde, ele mudou o nome da igreja para Mais do que Vencedores. Sua forma de pregar se apoia no que chama de "profetismo público": o suposto direito de ser um "porta-voz de Deus" para denunciar os "males da sociedade". Ele fala como se estivesse em guerra, chamando os processos contra ele de perseguição e até citando o livro A Arte da Guerra, de Sun Tzu, como inspiração.
Apesar disso, tenta construir uma imagem de homem amoroso: "Eu amo as pessoas, amo a todos os envolvidos", disse. Também afirmou que abraçaria qualquer um que o processou. Mas, ao mesmo tempo, em suas transmissões chamou o artista Joel Carlos de "feiticeiro" e "macumbeiro" e disse que um evento cultural da prefeitura era uma "convenção de bruxas", por exemplo. Essa mistura de palavras agressivas e declarações de afeto parece fazer parte de sua estratégia: atacar e depois se vitimizar.
Diante das condenações, diz que quem está no banco dos réus, na verdade, é "a Bíblia". Para ele, suas sentenças são provas de perseguição contra cristãos.
Vozes e feridas
Por trás dos processos e das notícias, existem pessoas reais, que sentiram na pele os ataques. As palavras do pastor não ficaram no ar: causaram dor, medo e deixaram marcas profundas. São essas vozes que irão contar o que você não sabe sobre o pastor de Igarassu condenado quatro vezes por racismo e transfobia.
Reencenando a inquisição
Uma mulher negra, trans, servidora pública, iniciada no candomblé e ativista. É também fundadora e vocalista do "Trans Coco", um grupo cultural criado em um terreiro de candomblé que utiliza a cultura do coco para promover a inclusão da população LGBTQIA+ e combater o preconceito através do ativismo e da arte.
A própria existência de Raphaella Ribeiro desafia a visão de mundo do pastor, e por isso ele a atacou de várias formas: seja se recusando a usar seus pronomes, chamando-a de "feiticeiro" e dizendo que ela organizava uma "convenção das bruxas".
Raphaella interpretou que o condenado, ao disparar seus discursos de ódio, queria "retratar a época da inquisição" e, com suas palavras, criou um clima de "caça-bruxa". Ela entendeu que o objetivo do pastor era silenciar as vozes da diversidade que estavam conquistando novos espaços.
O impacto foi devastador. Ela passou a viver com medo de "andar na rua e ser julgada", levando a um sentimento de constante ameaça, podendo resultar em depressão e suicídio. Em entrevista ao Marco Zero Conteúdo , ela resumiu a gravidade: "Tudo isso que ele está pregando, da forma que está fazendo, tem custado as nossas vidas".
Ela temia, especificamente, que fiéis do pastor pudessem entender suas pregações como um incentivo a perseguições ainda maiores. Passando por toda essa dor, ela decidiu processar o pastor, mas a trajetória não foi fácil. Ela relatou que a secretaria da Mulher e a Diretoria de Direitos Humanos municipais, na época, "se frustraram e se omitiram" em prestar socorro e acolher a situação de violação de direitos que estava acontecendo em Igarassu.
Determinada por justiça, ela procurou autoridades do governo do estado. A falta de apoio em Igarassu foi tão notável que a "explosão" do caso e sua repercussão não aconteceram no município, mas sim no âmbito estadual, para depois repercutir na cidade. Foi a intervenção da Secretaria da Mulher do Estado de Pernambuco, que foi essencial para o avanço do caso. Ao retirar o caso de Raphaella da Delegacia de Igarassu e transferi-lo para a Delegacia da Mulher de Paulista. "Tudo começou a fluir, tudo começou a andar", relata a vítima.
De todos os processos, o crime contra Raphaella tem a pena mais severa: 6 anos e 3 meses em regime semiaberto, além de uma indenização de R$ 16.500. O tribunal entendeu que o pastor foi, ao mesmo tempo, transfóbico, racista e intolerante religioso.
Raphaella contou que, embora tenha recebido o direito a uma indenização, considera o valor fixado pela Justiça "muito baixo". Ela explicou que não entrou com pedido por conta própria; foi o Ministério Público que incluiu no processo. Para ela, não existe dinheiro que pague pela vida, pela honra e pela dignidade das pessoas. Mesmo assim, acredita que as indenizações são importantes, porque atingem os agressores "no bolso" e podem fazê-los refletir sobre seus atos. Segundo a vítima, essas reparações devem servir não só como punição, mas também como forma de valorizar as vítimas e ajudá-las a reconstruir suas histórias.
Além da via judicial, ela também buscou apoio em terreiros da região e em movimentos sociais, como a Rede Articulação da Caminhada de Terreiros de Pernambuco (ACTP), o Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco (Amotrans-PE), o Grito dos Excluídos e Excluídas e o Conselho Municipal de Igualdade Racial do Paulista. Mas a vítima lamenta a falta de apoio em sua própria cidade: "Em Igarassu não tem movimentos sociais", disse. Ela ainda relatou que, em alguns momentos, pessoas tentaram usar sua dor para buscar "estrelismo".
Mesmo diante desse cenário, a vítima transforma sua dor em um chamado para ação. Ela insiste que é fundamental não se calar diante do ódio: "Denunciem. Guardem tudo: prints, comentários, vídeos. Salve em CD, PDF, pendrive, como for. Junte todas as provas e siga em frente". Ela acredita que a mobilização também chegou aos terreiros, e a população de axé passou a estudar e encontrar amparo na lei para denunciar e mostrar que muitas falas ditas "em nome de Deus" são, na verdade, crimes.
O ódio não pode calar a arte
O multiartista Joel Carlos Francisco, ator, dançarino e escritor, tornou-se alvo por um ato de cidadania. Ele participou de um vídeo de utilidade pública da prefeitura de Igarassu sobre a Covid-19. Bastou uma palavra para que o pastor distorcesse sua imagem e o difamasse como "feiticeiro".
Para Joel, a experiência foi um "capítulo horrível". Ele resume o peso da violência sofrida em palavras que revelam a profundidade da ferida: "É triste, é lamentoso, é dolorido. Você pensa em várias negatividades, como insegurança, invasão de privacidade".
Diferente de outras vítimas, Joel prefere manter distância do assunto, escolhendo não fazer discursos públicos nem revisitar essa dor. Ele descreveu a experiência de levar o caso à Justiça como "muito tensa" e "nada fácil". Apesar disso, contou que desde o início se sentiu protegido e amparado pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE), por advogadas, advogados, psicólogos e pelos juristas negros do estado: "Fui muito bem assessorado na defesa da minha honra e da minha liberdade".
Segundo Joel, "a Justiça existe de fato, pois ela me abraçou". Ele afirma que as sentenças, que somam 12 anos de prisão e indenizações, trouxeram uma sensação real de reparação: "O resultado representa o verdadeiro valor da Justiça realizada com êxito. Nos traz, sim, uma sensação de alívio em saber que tudo está sendo resolvido".
Apesar disso, sua jornada por justiça também foi marcada pela solidão institucional. Ele afirma categoricamente: "Não tive, nem tenho apoio nenhum, seja de ONGs ou movimentos antirracistas". Sua fortaleza foi a família. "Principalmente a minha esposa e nossa família que sofreram e sofrem junto comigo", conta.
Sua dor pode, inclusive, ganhar espaço em sua produção artística. Joel revelou que está escrevendo um novo livro sobre seus trabalhos e pretende citar o caso de injúria que sofreu. Assim como Raphaella, ele acredita que as pessoas não devem se calar diante da discriminação.
A dor que mudou de arena
A história de Nattasha Vlasak nessa trama do ódio começou por acaso. Travesti, defensora dos Direitos Humanos, ativista, produtora e servidora pública. Ela foi ex-diretora de direitos humanos e ex-gestora da Coordenadoria LGBTQIA+ de Igarassu entre 2021 e 2024, acumulando mais de 10 anos de experiência com políticas públicas LGBT+.
Naquela época, ela tinha acabado de assumir a Coordenadoria LGBTQIA+ de Igarassu quando começou a receber vídeos do pastor atacando "o coordenador do núcleo LGBT", sempre se referindo no masculino. As pessoas pensavam que o alvo era ela. "Todo mundo começou a me mandar essas mensagens, mandar esse vídeo", conta Nattasha. Só depois ela entendeu que ele se referia a Raphaella Ribeiro, a ex-coordenadora, por causa de uma live que ela havia feito.
Mesmo sabendo que não era o alvo inicial, Nattasha agiu. Como gestora pública, ela compreendeu que aquele era "um crime de ódio contra uma pessoa LGBT" e registrou o primeiro boletim de ocorrência contra o pastor, em nome da comunidade que representava. Esse ato de dever institucional a colocou diretamente na mira de Aijalon.
O que se seguiu foi uma campanha de assédio, um período que ela descreve como "aterrorizante". Ele passou a fazer vídeos semanais, usando a imagem dela, e colocando pressão na prefeitura de Igarassu. Um caso emblemático, que Nattasha relatou, foi quando o pastor colocou um carro de som na frente da prefeitura, disparando mensagens de ódio e, inclusive, exigindo sua exoneração.
O desgaste emocional foi imenso. Ir à delegacia se tornou um pesadelo. "É constrangedor. Muitas vezes você também passa por situação de preconceito dentro da própria delegacia", desabafa. Cada denúncia parecia "estar catucando uma ferida", alimentando um ciclo de dor e novos ataques do pastor.
Diante disso, Nattasha tomou uma decisão estratégica. Ela recuou do processo judicial direto. Não foi uma desistência, mas uma mudança de tática para proteger sua saúde mental e buscar uma solução mais duradoura. Ela decidiu lutar de outra forma: "com muito trabalho e com política pública".
Concentrada em transformar a dor em ação, Nattasha procurou a então vereadora Prazeres e apresentou uma proposta que resultou na criação de leis municipais inovadoras, sancionadas pela prefeita professora Elcione Ramos em Igarassu. Dessa iniciativa nasceu o Projeto de Lei nº 3494/2023, apresentado em março de 2023, que virou a Lei nº 3.494, de maio de 2023. A lei proíbe que pessoas condenadas por racismo ou injúria racial assumam cargos públicos na cidade.
Como a Lei do Racismo também abrange casos de homofobia e transfobia, a medida amplia a proteção contra diferentes formas de discriminação. Junto a isso, foi lançada a campanha "Igarassu sem LGBTfobia", reforçando o compromisso da cidade em enfrentar a intolerância.
Mesmo com esse avanço, Nattasha lamenta a ausência de movimentos sociais organizados na cidade. "Diferente de Recife e de outras cidades, Igarassu ainda não tem, até hoje, movimentos sociais, ONGs ou associações", afirmou. Ela reconhece que há muitas pessoas LGBTQIA+ participando da política e ocupando espaços de poder, mas reforça que "a gente não tem esse movimento organizado".
Segundo Nattasha, muitas ações e políticas públicas no município surgiram mais da atuação da Coordenadoria LGBT do que de grupos da sociedade civil. Ela também chama a atenção para a falta de movimentos negros locais. Essa ausência, diz, pesou em momentos de luta, quando sentiu falta de apoio mais estruturado. "Se houvesse movimentos sociais como em Recife, teria mais ajuda no trabalho de cobrança e no apoio em situações como a que vivi", afirmou. Para ela, essa falta de articulação torna "natural a gente lutar sozinha".
Mesmo assim, Nattasha mantém a esperança: acredita que novos movimentos vão surgir em Igarassu, para que as próximas batalhas sejam enfrentadas com mais força coletiva.
Lutando sozinhos
A ausência de uma rede de apoio local é o que une a narrativa de todos os envolvidos. Isso forçou cada vítima a desenhar sua própria estratégia de resistência. Algumas alianças foram formadas, como a amizade de Raphaella e Joel, mas, em todos os casos, era como lutar sozinho e encontrar seu próprio escudo.
Essa lacuna não foi apenas um detalhe, mas o fator que moldou o destino de cada um. Sem uma estrutura local para acolher e pressionar, as vítimas tiveram que inovar em suas formas de buscar justiça, transformando a vulnerabilidade individual em diferentes tipos de força. Hoje, Raphaella diz que está ajudando a mudar isso. Segundo ela, já começou a trazer grupos e pessoas para criar essa rede, e afirmou: "eu mesma estou trazendo alguns movimentos sociais para Igarassu, que logo logo todo mundo vai ficar sabendo". Com movimentos sociais organizados, a cidade pode se blindar ainda mais de ataques de ódio.
A Lei "Anti-Aijalon": quando a dor vira política
A resposta mais permanente ao caso não veio dos tribunais, mas da política local. Impulsionada pela experiência de Nattasha Vlasak e pela vereadora Prazeres, e sancionada pela, prefeita Elcione Ramos, Igarassu tem a Lei Municipal nº 3.494/2023. A legislação proíbe que pessoas condenadas por racismo ou injúria racial assumam cargos públicos na cidade. Como a Lei do Racismo também abrange casos de homofobia e transfobia por decisão do Supremo Tribunal Federal, a medida amplia a proteção contra diferentes formas de discriminação.
Foi uma manobra estratégica para impedir que o pastor convertesse sua notoriedade em poder político. Diante da lei, Aijalon nega querer entrar na política. Ele se disse "espantado com o limitado discernimento dos políticos", afirmando que o confundiram com "Pastores de conveniência".
Para as vítimas, a Lei é importante. Joel Carlos considera "inadmissível" que pessoas condenadas ou investigadas por racismo, corrupção, homofobia, violência contra a mulher ou pedofilia ocupem cargos públicos. Raphaella Ribeiro também vê a lei como de "grande relevância". Ela ainda sugere criar uma norma mais rígida, afirmando que seria bom "pensar em uma lei que exija uma análise mais rigorosa das pessoas nos poderes, verificando se devem realmente estar ali".
Como vive o pastor condenado atualmente?
Aijalon Berto segue cumprindo as penas somadas de 12 anos em regimes aberto e semiaberto, após passar cinco meses preso em regime fechado por descumprir ordens judiciais. Ele aguarda a deliberação do juiz de execução penal para definir os detalhes do cumprimento.
O pastor alega não ter condições de pagar as indenizações que ultrapassam R$ 130 mil, afirmando: "eu não tenho posses, não tenho bens, e aí a justiça vai ver o que vai fazer".
Com toda a repercussão, ele afirma que não houve evasão de fiéis. Segundo ele, até na prisão pregou "o evangelho com mais autoridade e mais poder". Sua rotina mudou, mas sua convicção, não. Ele agora adota uma abordagem "estratégica" para pregar, inspirada em "cristãos perseguidos", para "não dar o que o estado totalitário quer".
Sobre sua situação atual, declarou: "Estou tranquilo, bastante tranquilo. Cabe recurso, mas enfim, estou tranquilo". Questionado sobre como sua vida mudou, disse: "além de ter o nome de um condenado, no ponto de vista cristão pelo evangelho nada muda, permaneço fiel às escrituras, amando as pessoas e procurando conclamá-las ao arrependimento". E reforçou: "A despeito até de qualquer tipo de penalização, eu permaneço tranquilo". Quanto às indenizações e ao futuro, resumiu: "E é por isso que eu lhe falo, que a vida continua".
Com base no que ele mesmo admite, aprendeu apenas a operar nos limites da legalidade, o que pode tornar seu discurso futuro mais codificado e difícil de processar, embora potencialmente tão nocivo quanto antes.
Contraponto do fundamentalismo
Em meio ao barulho do discurso de ódio, outras vozes de fé se ergueram, não com pedras, mas com argumentos. Líderes de diferentes vertentes do cristianismo se posicionaram, desmontando a narrativa de Aijalon de que sua luta era em nome de Deus.
A Lei de Deus e a dos homens
O Pastor Aguinaldo Pereira da Silva Filho, que acolheu Raphaella, foi um desses contrapontos. Apesar de ambos serem protestantes, sua denominação é a Igreja Batista. Sua crítica foi direta. Para ele, o pastor condenado "desconhece a lei. Tanto a lei daqui das pessoas, como a lei de Deus". Ele argumenta que a mensagem de Cristo é de amor, respeito e união.
Citando o Artigo 50 da Constituição, defende a liberdade de crença como um direito inviolável que exige respeito mútuo. Para ele, impor uma fé "pela força, pelo poder" é uma traição à própria mensagem do evangelho. Recorrendo às escrituras, ele cita Zacarias 4:6: "não por força nem por poder, mas pelo meu espírito, diz o senhor dos exércitos". A fé, segundo ele, deve ser um convite, não uma imposição. A obrigação de um pastor, conclui, é "orar pelas pessoas, não importa quem elas sejam".
O silêncio como resposta
Embora tenha sido alvo dos ataques do pastor, o Padre Josivan Bezerra, Vigário Episcopal de Igarassu, tomou a decisão de não abrir um processo. Em entrevista ao Aratu Online, ele explica citando dois motivos: seguir o exemplo de Jesus, que "calava quando o atacavam", e evitar um "escândalo que fragilizaria a fé" das pessoas.
Seu silêncio pessoal, no entanto, não foi sinônimo de conivência. Pelo contrário, ele encorajou as outras vítimas a buscarem a justiça e classificou a condenação de Aijalon como "justa, correta e exemplar". Para o padre, a lei civil agiu com acerto ao punir tais atos. Ele argumenta teologicamente que a liberdade religiosa não pode ser um pretexto "para o ataque às pessoas, o desmerecimento violento de suas práticas". A própria Igreja Católica, diz ele, superou há séculos textos violentos do Antigo Testamento, adotando uma evangelização propositiva, baseada no amor a Deus e ao próximo.
Um retrato do Brasil
O caso de Igarassu não é isolado. Ele expõe uma tendência nacional preocupante. Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania mostram que as denúncias de intolerância religiosa cresceram 80% entre 2022 e 2023, com as religiões de matriz africana sendo as mais atacadas.
O pastor Florêncio é apenas um sintoma de uma corrente extremista que ganha força no país. As redes sociais, que Raphaella lembra não serem uma "terra sem lei", amplificam esses discursos e fazem com que conflitos locais ganhem alcance nacional. Nesse ambiente digital, a teologia neopentecostal da "guerra espiritual" transforma a intolerância em obrigação religiosa, vendo outras crenças, não como diferentes, mas como inimigas a serem eliminadas.
As quatro condenações de Aijalon Berto representam uma vitória da lei. Elas mostram que um púlpito, físico ou digital, não concede imunidade a crimes. Mas a história de Igarassu também fala sobre algo maior. Ela revela o poder destrutivo do fanatismo, mas também a força criativa da resistência. Deixa uma pergunta que não pode ser ignorada: o que precisamos fazer, como sociedade, para garantir que a dignidade vença o dogma?
Resumo das Condenações
Intolerância Religiosa
Linguagem: "demônios", "animais abomináveis", "entidades satânicas"
Pena Aplicada (11/09/23): 2,5 anos e R$ 100.000 por danos coletivos.
Discriminação Religiosa
Linguagem: Ataque ao Orixá Ogum ("incestuoso, violento")
Pena Aplicada (12/07): Parte da pena total de 12 anos.
Injúria Qualificada
Linguagem: Chamado de "feiticeiro" e "macumbeiro"
Pena Aplicada (03/08): 3 anos e 9 meses e R$ 16.500 de indenização.
Transfobia
Linguagem: Termos pejorativos e desrespeito à identidade de gênero
Pena Aplicada (06/08): 6 anos e 3 meses e R$ 16.500 de indenização.



