Do quintal de um menino aos pratos da alta gastronomia: uma história de resistência, sabor e sobrevivência.
Estamos em Igarassu, Pernambuco, no início dos anos 2000. É fim de tarde, com o céu colorido de tons alaranjados, e um menino aguarda ansioso pelo estrondo do trovão. No verão do litoral nordestino, esse som não avisa apenas que a chuva vem aí; para ele, é um sinal verde da natureza: a hora exata da tanajura sair da toca.
Essa corrida com garrafas PET na mão se repete em quintais por todo o Brasil. O que parece apenas uma brincadeira de criança é, na verdade, a reencenação inconsciente de um ritual indígena milenar, muito anterior à própria formação do país. É a formiga juntando biologia, história e o nosso futuro.
A captura da rainha da saúva (Atta sexdens) revela uma trajetória fascinante: como um inseto transitou de "praga" nas roças para "iguaria" nos pratos ao longo dos séculos?
Esta é a história da linha invisível que conecta a sabedoria dos povos da Amazônia e os relatos dos primeiros cronistas à curiosidade da Família Real; vai das fábulas de Monteiro Lobato à defesa apaixonada de Ariano Suassuna, até chegar, finalmente, à memória daquele menino de Igarassu.
Do estranhamento ao banquete colonial
O consumo de formigas causou espanto inicial nos colonizadores europeus. No entanto, duas coisas são mais fortes que o preconceito: a fome e a curiosidade. Ao que tudo indica, entre eles, seu consumo estava longe de ser usual, exceto para os que estavam habituados à convivência dos nativos.
Em 1587, o cronista Gabriel Soares de Sousa registrou que homens brancos adotaram o hábito indígena e o consideravam saboroso. No entanto, para Soares as formigas eram "imundícies" e existiam para "enfadar os homens" e impedi-los de aproveitar o "paraíso terreal" que era a Bahia. Sua visão era dramática, mas séculos depois, com a guerra às saúvas, parecia ser uma profecia.
Para explicar o sabor à Europa, uma figura bem conhecida da história do Brasil, o Padre José de Anchieta, usou uma comparação refinada. Ele descreveu o gosto das formigas como semelhante ao das "passas de Alicante", uma iguaria espanhola do Velho Mundo. Também disse ter notas de "cravo e laranja".
— Padre José de Anchieta
O Século XIX: praga ou prato?
O conflito com a tanajura já havia sido profetizado. Entre 1757 e 1776, o "manjar" gorduroso que rivalizava com a manteiga europeia causava desespero aos colonos. O padre jesuíta João Daniel, na Amazônia, descreveu o pânico em seus relatos ao ver pomares e roças dizimados em uma única noite.
Tempos depois, no século XIX, o naturalista francês Auguste Saint-Hilaire falou da hipocrisia da época: os barões do café e da cana-de-açúcar combatiam a formiga como inimiga pública, mas também a consumiam, muitas vezes na intimidade das fazendas.
Foi ele o responsável pela frase que definiu aquele período:
"Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil."
Saint-Hilaire registrou com espanto antropológico a contradição econômica do inseto: a mesma "praga" combatida nas lavouras era comercializada livremente como iguaria nos tabuleiros urbanos de São Paulo.
Orgulho e preconceito: Da Corte ao Sertão
A própria Família Real não ficou imune. D. Pedro II, movido por sua curiosidade científica, provou a iguaria em suas viagens. Mas os tempos mudaram. O que antes era vendido aos gritos nos tabuleiros passou a ser comido "às escondidas". A elite, constrangida, foi empurrada para a clandestinidade gastronômica por sátiras que ligavam o costume à barbárie.
No século XX, porém, a literatura transformou a formiga em símbolo de identidade. Monteiro Lobato ressignificou o viralatismo e a consagrou como o "caviar da gente taubateana". No Nordeste, Gilberto Freyre a descreveu como elemento de democracia alimentar, enquanto Ariano Suassuna elevou o consumo a um ato político de afirmação da cultura sertaneja.
Quem também guarda essa memória é o presidente Lula. Em 2010, recordou sua infância em Caetés com uma imagem crua: na seca, "a lombriga maior comia a menor". Nesse cenário, a tanajura era um banquete proteico que caía do céu.
Içá, Tanajura e Maniwara
O nome e o preparo mudam conforme a região. No Sudeste, Silveiras (SP) se autoproclama a "Capital da Içá". No Nordeste, ela é frita na manteiga com farinha. Mas é na Região Norte que ela vira alta gastronomia.
Lá, a nossa tanajura divide o palco com a Maniwara (um tipo de cupim graúdo). A criatividade ancestral transforma esses insetos. Um exemplo é a Quinhapira, caldo de peixe temperado com tucupi preto e maniwara pilada. Outra invenção genial é o Molho de Pimenta Baniwa: um "pózinho atômico" de pimenta jiquitaia com formiga assada, cheio de umami.
Superalimento e o nosso futuro
A ciência demorou, mas finalmente deu o braço a torcer para o que os povos da floresta sabem há milênios: a tanajura não é só "comida exótica", é uma bomba nutricional que humilha até a picanha.
Os números não mentem:
Alto impacto ambiental
Sem desmatamento
É quase o dobro de força, sem precisar derrubar uma única árvore para criar pasto. Em um mundo em emergência climática, continuar torcendo o nariz para insetos (entomofagia) não é sinal de sofisticação; é um risco à sobrevivência.
Por isso, comer tanajuras é um ato de resistência biocultural. A formiga pede apenas que a chuva caia e a terra esteja limpa.
— Fonte: Lembraria
Aquele menino de Igarassu, correndo atrás de tanajuras sob o pôr do sol, não estava apenas garantindo o jantar. Sem saber, ele praticava uma lição vital: a resposta à fome da humanidade pode não estar nos laboratórios, mas voando em nossos quintais, esperando apenas que a gente perca o preconceito antes que perca o planeta.




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