Igarassu não é "Cidade-Mãe".
É a Tataravó.
Discreta hoje, Igarassu comandou metade da Capitania de Pernambuco por quase três séculos.
Sumário
- 1. Introdução
- 2. Como funcionava o território na colônia
- 3. O Rio Paratibe e a primeira grande fronteira
- 4. A confirmação holandesa
- 5. A mão dos super-ricos e o nascimento de Paulista
- 6. A rebeldia de Maricota e a criação de Abreu e Lima
- 7. A avó do agreste
- 8. A pressão de Goiana
- 9. Igarassu hoje: uma cidade de várias identidades
Seu território original explica fronteiras confusas, bairros com identidades partidas e disputas administrativas que ainda aparecem no mapa atual.
Chamá-la de "Cidade-Mãe" é pouco. Os documentos comprovam que ela funciona como uma espécie de Tataravó do estado. Cidades que hoje parecem independentes nasceram dentro de seus limites, crescendo sob a autoridade dos santos Cosme e Damião.
Como funcionava o território na colônia
O erro comum ao tentar entender a geografia colonial é usar a lógica dos municípios atuais.
Na época, não existiam cidades no sentido moderno. Havia:
A Tríade Colonial
- Vilas: núcleos urbanos
- Termos: áreas sob responsabilidade administrativa
- Freguesias: espaços religiosos
Esses limites raramente coincidiam. Um morador podia viver em área ligada a Igarassu, pagar dízimos em Olinda e responder a um juiz diferente.
Para facilitar a leitura, esta reportagem usa as cidades atuais como referência visual de fronteiras que eram fluidas.
O Rio Paratibe e a primeira grande fronteira
O Foral de 1537, documento reconhecido pela UNESCO como Memória do Mundo, estabeleceu o Rio Paratibe como limite rígido.
Ao norte da margem começava o território de Igarassu.
"Desta banda do Rio Doce, que se chama Paratibe, para a parte do norte, começa o Termo de Santa Cruz (Igarassu)."
Isso significa que áreas onde hoje estão Paulista e Abreu e Lima nasceram sob autoridade igarassuana.
A divisão criou uma dinâmica paralela. Olinda crescia para o sul e oeste. Igarassu avançava para o norte e oeste. As duas se estendiam em direção ao interior, muitas vezes competindo pela mesma mata e pelos mesmos recursos.
Documentos como os Anais Pernambucanos registram conflitos pela exploração da lenha, essencial para os engenhos.
No papel, o limite era claro. Na prática, quem tinha dinheiro distorcia a geografia.
A confirmação holandesa
Os holandeses reforçaram a fronteira. A Companhia das Índias Ocidentais registrou mapas precisos entre 1630 e 1654 porque precisava saber onde cobrar impostos.
Para os estrategistas de Nassau, o Rio Paratibe funcionava como linha de defesa natural de Recife e Olinda.
Cartas como as de Georg Marcgrave mostram nitidamente Igarassu como um território distinto ao norte, sob dominação predominantemente portuguesa.
A mão dos super-ricos e o nascimento de Paulista
A decadência de Igarassu começou após a guerra da restauração, entre 1645 e 1654, quando seus engenhos foram destruídos.
Olinda, mesmo arrasada, já tinha voltado a se consolidar economicamente.
Um episódio ilustra esse desequilíbrio. Olinda precisou pagar a parte que caberia a Igarassu e Itamaracá no imposto criado pela Coroa para financiar a paz com a Holanda e o casamento da princesa portuguesa com o rei inglês. Igarassu não tinha recursos e recebeu isenção.
É nesse cenário que João Fernandes Vieira, herói da expulsão dos holandeses e homem mais rico da Capitania, compra as terras que formariam Paulista.
Embora estivessem formalmente no lado de Igarassu, Vieira não aceitava cumprir regras da cidade vizinha. Na prática, anexou sua propriedade a Olinda, que precisava ampliar sua produção de cana.
Note-se a ironia: a futura cidade recebeu como nome o apelido de um proprietário, sinal de que nasceu como território privatizado e não como criação oficial da Coroa.
Inclusive, a manobra de João Vieira, ao impor a lógica da propriedade privada sobre os limites oficiais, abriu uma fenda administrativa que atravessa os séculos e ainda é um problema atual.
Onde havia mangues e várzeas surgiram bairros densos (Cidade Tabajara, Janga, Rio Doce, etc.) marcados por ruas de identidade dupla, falta de serviços públicos e moradores sem clareza sobre qual prefeitura deveria atender suas demandas.
Quando hoje cruzamos a ponte do Janga, estamos atravessando a linha histórica de tensão entre Olinda e Igarassu, onde no passado fiscais disputavam até quem cobraria imposto pela lenha.
A rebeldia de Maricota e a criação de Abreu e Lima
O povoado de Maricota, atual Abreu e Lima, era ponto vital na estrada real que ligava Igarassu a Goiana e à Paraíba. Sua vida girava em torno de Igarassu.
Quando Paulista virou município, em 1935, absorveu Maricota como distrito.
A partir de 1955, Paulista viveu forte instabilidade em seus quatro distritos (Paulista, Abreu e Lima, antiga Maricota, Praia da Conceição e Paratibe) acabaram se tornando cidades.
Paratibe e Praia da Conceição voltaram depois para o território principal. Maricota não.
Nos anos 1980, Abreu e Lima retomou a luta emancipatória numa tentativa de corrigir limites tortos criados desde o século XVII.
Muitas vezes, eventos históricos da região aparecem atribuídos a Paulista, como a passagem de Dom Pedro II ou o refúgio de Frei Caneca no Engenho Utinga. Ambos ocorreram em áreas com laços diretos com Igarassu.
A figura central de Maricota era o coronel igarassuano Manoel Pereira de Morais, do Engenho Inhamã, um dos mais importantes de Pernambuco.
Na primeira campanha emancipacionista, o líder foi o médico e deputado Geraldo Pinho Alves, representante da nova classe média local.
Em 1963, a Lei Estadual 4.993 garantiu a emancipação. Ao virar cidade e adotar o nome do general Abreu e Lima, o município recuperou sua história e expôs de vez a expansão desordenada de Paulista para o norte.
A avó do agreste
Enquanto o litoral se aproximava cada vez mais de Olinda, Igarassu mantinha seu peso avançando para o interior. É por isso que pesquisadores lembram sempre: Limoeiro começou como uma extensão natural do território de Igarassu.
Isso empurra a história de Limoeiro para os primeiros anos da colonização, muito antes de sua emancipação.
Ser "filha" de Igarassu significa ter raízes ligadas diretamente aos primeiros núcleos da Capitania.
Nos séculos XVII e XVIII, essa influência se estendia por regiões que hoje parecem distantes, seguindo o caminho do Rio Capibaribe.
No entanto, se alguém cometesse um roubo em 1750, a sentença oficial só chegaria após dias de cavalgada. Justiça e decisões políticas vinham da Câmara de Igarassu.
A distância tornou a administração inviável. Limoeiro ganhou freguesia própria, cresceu e, em 1811, virou vila.
Não foi rebeldia, mas necessidade. Igarassu acabou dando origem ao polo que geraria cidades como Santa Cruz do Capibaribe e Toritama.
A história registra uma dupla pertença. Em alguns registros, Limoeiro aparece vinculada a Olinda e a Igarassu ao mesmo tempo. O sertão tinha fronteiras vagas e um engenho podia pagar dízimo a um lugar e buscar justiça em outro.
A pressão de Goiana
Igarassu também enfrentou a força de Goiana pelo norte. Não houve guerra direta, mas uma disputa silenciosa por influência.
À medida que Goiana prosperava economicamente, atraía para si a região da Mata Norte e enfraquecia o comando da cidade.
Igarassu hoje: uma cidade de várias identidades
A reorganização territorial deixou marcas profundas. O debate recente sobre a possível emancipação de Cruz de Rebouças mostra que Igarassu reúne realidades distintas num único município.
A prova aparece no calendário oficial. A cidade mantém três desfiles cívicos: um em Cruz de Rebouças, outro no Centro e um terceiro em Três Ladeiras.
O cotidiano se espalha em vários núcleos. Cueiras, Nova Cruz e Agamenon Magalhães convivem com identidades fortes dentro do mesmo território.
A antiga Tataravó ainda administra uma família grande. Mas hoje faz isso com mais harmonia, sem a necessidade de redesenhar novamente o mapa de Pernambuco.
Este é o conteúdo estruturante da série "Igarassu de Outrora"



