Em 30 de março de 2004, na véspera de deixar a prefeitura de Igarassu, Yves Ribeiro inaugurou uma estátua de Duarte Coelho, considerado fundador de Pernambuco. Apesar de ignorada por quem transita pelo Centro comercial da cidade, a história por trás do monumento revela mais do que uma simples homenagem.
As motivações para a construção foram diversas. Yves Ribeiro desejava deixar um símbolo de seu mandato antes de disputar a prefeitura de Paulista. A ideia foi, em grande parte, uma sugestão do jornalista Eudes Pereira, do Jornal Grande Recife; mas, também ecoava uma cobrança de autoridades portuguesas por uma homenagem ao donatário.
O contexto
A homenagem se insere após forte aproximação com Portugal. Igarassu estava se tornando "cidade-irmã" de Viana do Castelo, em Portugal. O então prefeito foi o principal articulador desse processo, formalizado em Lei no ano de 2003 (Projeto de Lei N.º 020/03). A justificativa histórica era que o fidalgo Afonso Gonçalves, natural de Viana, teria sido o responsável por erguer a vila de Igarassu a mando de Duarte Coelho.
O texto citava um aprofundamento dos laços com os "irmãos d'além mar" e planejava até a criação de uma "Vivenda de Vianna do Castelo" em Igarassu, um espaço cultural para cimentar a identidade portuguesa na cidade.
Em 16 de março de 2004, uma comitiva de 50 portugueses, liderada pelo prefeito de Viana, Defensor Moura, desembarcou em Igarassu para selar o pacto. Houve discursos, almoço no Gavoa Beach Resort, em Nova Cruz, e apresentações culturais de ambas cidades, celebrando uma fraternidade redescoberta.
Para Yves, tratava-se de um desejo de fortalecer o “conhecimento mútuo e a colaboração recíproca, visando ao enriquecimento da nossa memória coletiva, das duas cidades”.
Resgate da memória de Duarte Coelho
A primeira escultura do capitão-donatário no Brasil foi criada pelo falecido artista Ricardo Andrade. Curiosamente, o mesmo que esculpiu a Iemanjá na Praia do Rio Doce, em Olinda.
Para além da parceria como Jornal Grande Recife (principal idealizador do projeto, em nome do jornalista Eudes Pereira), a materialização do monumento dependeu de um robusto apoio financeiro do setor privado. A lista de patrocinadores inclui um leque de empresas influentes na região: Nordesclor, São José Agroindustrial (Usina São José), Vinhos Carreteiro, antiga Lever Igarassu (agora Unilever), além do empresário Jorge Cavalcanti de Petribú, da Usina Petribú.
O apoio político também veio de fora do gabinete. Figuras como Rubens Catunda, ex-prefeito de Itamaracá, e os políticos locais, o vereador Maguila e o ex-prefeito Mário Ricardo, foram citados como apoiadores do "Projeto Resgate da Memória de Duarte Coelho".
Questionado pelo Aratu Online sobre a participação popular, Yves Ribeiro afirmou que 93% da população teria apoiado a construção. Porém, a falta de registros oficiais dificulta comprovar essa informação. Também não há dados sobre o gasto na obra.
Fora de proporção
O artista Paulo Lemos, ao analisar a escultura, foi categórico: ela está "fora de proporção". O problema está na cabeça, que é “muito maior” do que deveria em relação ao corpo.
Lemos explica que, segundo os cânones clássicos, o corpo de uma figura masculina não naturalista deve ter altura de oito vezes sua cabeça (do queixo para baixo). A estátua de Duarte Coelho falha nesse teste, ficando desajeitada, com peso no topo, quase caricatural.
“Parece que ele tem o corpo ‘entroncado’, com a cabeça grande”, complementa o artista. O olhar também é inexpressivo, parece que Duarte está assustado com o que vê.
A ferida colonial
O então prefeito Yves Ribeiro viajava bastante a Portugal. Em entrevista, revelou que autoridades portuguesas lhe cobravam alguma homenagem a Duarte Coelho. Essa pressão já existia em mandatos anteriores, mas nunca foi atendida.
Assim, Yves uniu o útil ao agradável: acolher a ideia do Jornal Grande Recife e quitar essa “dívida” com Portugal. O Projeto Resgate da Memória de Duarte Coelho envolveu pesquisas e várias viagens ao país para aprofundar o conhecimento sobre o donatário.
Com frequência, ao homenagear uma figura histórica, Duarte Coelho é a primeira escolha.
A escultura, diante do Centro Comercial, evoca uma história antiga e violenta: a origem de Igarassu.
A narrativa oficial da fundação heroica encobre uma verdade inconveniente: a história de Duarte Coelho é controversa e manchada de sangue, e a cidade surgiu após a derrota dos indígenas caetés.
Quem foi Duarte Coelho?
Duarte Coelho Pereira, fidalgo e militar português, desembarcou em 1535 na costa pernambucana para assumir a capitania doada pela Coroa. A Capitania de Nova Lusitânia foi criada em 1534, no reinado de Dom João III, como parte do sistema de Capitanias Hereditárias — estratégia para colonização, diante do interesse da França nos territórios ocupados pelos portugueses.
Nesse sistema, faixas de terra eram doadas aos donatários com poderes administrativos, em troca de compromisso com povoamento, defesa e desenvolvimento econômico, e envio de lucros à Coroa.
Oriundo do Porto e filho ilegítimo do navegador Gonçalo Coelho, Duarte Coelho seguiu carreira diplomática e militar na África, Oriente e Brasil, o que o qualificou para liderar uma capitania ambiciosa.
Sua chegada a Pernambuco iniciou um processo violento: confronto com povos originários, sobretudo os Caetés. Com colonos, fundou São Cosme e Damião (hoje Igarassu), uma das primeiras vilas do Brasil, seguida por Olinda (1537) e o povoado do Recife, que cresceria como porto estratégico.
Para viabilizar economicamente a capitania, que era maior que Portugal, Duarte Coelho apostou na cultura da cana-de-açúcar, com engenhos e apoio financeiro. Promoveu o uso intensivo de mão de obra escravizada — indígenas dos confrontos locais e, depois, africanos.
A fundação de Igarassu simboliza o início do Brasil: conquista militar, exploração econômica e violência colonial. Um episódio emblemático foi a “morte” de Dom Pero Fernandes Sardinha em 1556. Após naufrágio, os Caetés foram acusados de canibalismo. Isso justificou a "guerra justa" decretada pela Coroa com bula papal, resultando em extermínio e escravização em massa das populações indígenas e seus descendentes.
Pesquisas recentes trazem nova luz: o historiador Tales Pinto, mestre em História pela UFG, aponta que os Caetés foram usados como bodes expiatórios. Dom Sardinha havia denunciado abusos, incluindo violência sexual contra mulheres indígenas, atribuída a Álvaro da Costa, filho do governador-geral. Esses conflitos internos podem ter sido a real motivação de sua morte — e da repressão que se seguiu.
Sua viagem a Portugal era para denunciar esses crimes à Coroa. Sua morte pode ter sido um assassinato político, uma queima de arquivo. Os Caetés, que já tinham atritos com portugueses por contrabando de pau-brasil com os franceses, tornaram-se culpados ideais.
A "Guerra dos Caetés" foi, na prática, uma campanha genocida baseada em provável mentira. Celebrar Duarte Coelho é, portanto, endossar tacitamente a violência fundadora do Brasil.
O monumento de cimento em Igarassu não homenageia apenas um homem; celebra a vitória da narrativa colonizadora sobre a verdade da vítima. É a "ferida colonial" em sua forma mais explícita, celebrada em praça pública.
Hoje, a estátua planejada como símbolo turístico enfrenta o desgaste do tempo. Yves Ribeiro admite que foi deixada por longos períodos sem cuidado, embora a prefeitura tenha feito esforços recentes para manutenção.



